Isaac With a Book

Sou apaixonado por leitura mas considero-me um geek feliz perdido nos meus mundos de livros, cinema e jogos.
Acima de tudo, aprecio uma boa história independentemente do formato.

O Hobbit | Review

Um clássico de Tolkien com uma bordagem especial.

O Hobbit: O Pequeno Gigante de Tolkien

Há livros que chegam às nossas mãos de forma aleatória. Num dia, sem aviso. O Hobbit foi o primeiro livro do Tolkien que comprei quando comecei a construir a minha biblioteca e ali ficou durante algum tempo (já aqui disse que a compra e a leitura são duas atividades distintas 🤷🏻). Nunca imaginei que o caminho até à sua leitura se fosse tornar tão especial, e que passaria pela aula de português do meu filho.

O Afonso tem um projeto na aula de Português chamado "5 minutos", criado precisamente para incentivar a leitura nas crianças (no 5º ano isso parece-me uma excelente iniciativa). Um dia quando o fui buscar ao colégio, pediu-me o Hobbit emprestado para ler na aula de português. Tinha acabado os "Indomáveis FC" e precisava de outra coisa. A mim pareceu-me uma excelente escolha e um claro upgrade no tipo de conteúdo por isso disse-lhe que sim (mas que tivesse cuidado com o livro porque já sabe que sou picuinhas com o estado dos meus livros). Leu-o todo passado pouco tempo. E a ironia, que não me passa despercebida, é que fê-lo antes de mim. Durante a leitura, vinha ter comigo com perguntas sobre as personagens e a contar o que estava a acontecer na história (o primeiro diálogo entre Gandalf e Bilbo, enquanto fumam cachimbo, foi uma das partes que o marcou pela diversão e peculiaridade). De certa forma, conheci o Hobbit através dele antes de o ter lido. Fui um leitor de segunda mão antes de ser leitor de primeira.

O Afonso entrou no mundo de Tolkien na idade certa. Eu cheguei depois, com a bagagem de quem já conhece a trilogia. No fim da leitura dele, ofereci-lhe o livro com uma dedicatória: "Mesmo sendo pequenos, podemos mudar o mundo." E foi assim que acabei por mergulhar na história de Bilbo Baggins, em ebook, desta vez, com o exemplar físico a fazer falta na estante onde devia estar.

Um primeiro trabalho com a marca do primeiro trabalho

Li o Hobbit depois de ter lido O Senhor dos Anéis. Não é propriamente a ordem natural das coisas, eu sei.

Tolkien é um autor extraordinariamente descritivo e é essa capacidade que torna O Senhor dos Anéis tão imersivo. Os lugares têm tridimensionalidade e peso, as personagens têm profundidade, os momentos marcam. O Hobbit tem essa mesma assinatura mas numa versão um pouco menos afinada. É como ouvir uma banda que adoras numa gravação antiga: reconheces o talento, mas algo ainda estava a ser descoberto.

Não foi uma desilusão. Foi uma espécie de downgrade consciente. Sabia que estava a ler um livro mais leve, pensado originalmente como uma história para crianças, e aceitei-o como tal. Ainda assim, não consigo deixar de sentir que a Terra Média, sendo incrível, não está tão desenvolvida aqui como na trilogia.

As personagens e o Gandalf que ainda não era Gandalf

As personagens são interessantes enquanto conjunto. Bilbo é uma personagem bem construída e a sua viagem de hobbit caseiro e avesso à aventura para herói improvável é o coração do livro. Mas foi Gandalf que me deixou com uma sensação estranha.

No Senhor dos Anéis, Gandalf tem uma presença que vai muito além do que diz e faz. É poderoso, misterioso, com aquela sensação constante de que existe muito mais para se saber. No Hobbit é quase uma figura de conto de fadas, um "feiticeiro velho" simpático, mas sem aquela essência de Gandalf. Sinto que o próprio Tolkien ainda estava a descobrir quem era Gandalf quando escreveu o Hobbit, e nota-se.

As cartas que levantam o véu

Quando leio gosto de saber mais sobre o autor e entender a sua mentalidade, o que o levou a criar determinada personagem ou porque é que o seu mundo imaginário tem uma determinada configuração. Por isso mesmo, um dos extras que mais apreciei foi o prefácio de Christopher Tolkien, que inclui cartas do próprio pai. Foi essa combinação, o prefácio e as cartas, que me ajudou a perceber o contexto em que o livro surgiu e a ter uma janela sobre o processo criativo de Tolkien. Para os mais geeks como eu, os prefácios dos livros de Tolkien e todas as suas notas sobre isto e aquilo são ouro tão precioso como o da montanha era para Smaug.

Vale a pena?

O Hobbit é uma boa história. Abre as portas para um mundo que deixa curiosidade e que claramente motivou Tolkien (e os seus leitores) a ir muito mais longe. Não é o livro mais cativante que já li, nem o mais imersivo. Nas palavras de Steven Colbert, um mega geek de "O Senhor dos Anéis", o livro é um "meh" quando comparado com a trilogia. Contudo, acho que o erro é esse, uma comparação desonesta e que lhe retira valor. A minha avaliação foi: 3 em 5 estrelas mas a opinião final é de que vale mesmo a pena ler.

Até já e boas leituras,

Isaac Barradas

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